Prolongamento de contratos de aluguer e redução de frotas acentua-se em 2011

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O efeito psicológico da crise deverá acentuar o pessimismo nas empresas, onde será difícil encontrar projectos de ampliação de frotas. A ARVAL sentou diferentes representantes da cadeia de valor à mesma mesa para antecipar as previsões dos operadores para 2011 e confirmam-se as expectativas de contenção de custos.

Renovar frotas? Decisão adiada! É este o sentimento predominante no mercado empresarial no que diz respeito à gestão das suas frotas. Os contratos são cada vez mais prolongados e renegociados, a opção de compra de veículos novos abandona a lista de prioridades e os departamentos encarregues da gestão de frotas assumem a obrigação de conter custos e de racionar todas as suas decisões. “O mercado de frotas tenderá a estagnar ou até a diminuir ligeiramente e alguns clientes vão adiar os seus contratos”, confirma Nuno Braga, director-geral da Lexus. Apesar de reconhecer que a marca que representa está em contraciclo, Nuno Braga crê que os adiamentos se estendem também às decisões de compra de veículos novos. “É sobretudo um efeito psicológico da crise e todos os investimentos de grande envergadura tendem a ser relegados para o fim de 2011 ou até mesmo para 2012”, antecipa o director-geral da Lexus.

“É uma questão de prudência”, alega João Zuquete, director financeiro da Fnac, confirmando que a empresa voltou a repetir este ano a decisão de prolongar contratos e adiar projectos de ampliação de frota. “A Fnac é daquelas empresas que sente imediatamente os efeitos da crise na retracção do consumo e isso foi muito evidente em 2009 e 2010. Mas se eu abrir uma loja nova em 2011 vou precisar de continuar a fornecer viaturas às pessoas e nesse caso não vou deixar de investir nesse campo, se tal se revelar necessário”, contrapõe João Zuquete.

Situadas igualmente na linha da frente em matéria de retracção do consumo em tempos de crise, as retalhistas de combustíveis constatam uma crescente preocupação com a gestão eficiente dos recursos afectos à gestão de frotas, onde o combustível assume um papel fundamental. Jorge Gonçalves, B2B manager da BP, constata que “nos últimos dois anos temos vindo a assistir a uma alteração na forma como as empresas olham para a gestão operacional das suas frotas, o que não é necessariamente negativo para nós porque hoje temos uma ampla oferta que gira em torno do cartão de frota e que vai nesse sentido de redução de custos”. Por isso, o responsável da BP assume “estar atento” e prefere acreditar que “é possível encontrar novas oportunidades nesses desafios“. Confirma, no entanto, que os tempos de incerteza originaram um fluxo mais frequente de perguntas sobre formas de aceder a combustíveis a custos mais baixos através do cartão de frota. “Nas empresas pequenas o impacto do custo do combustível não é muito, mas nas empresas de maior dimensão qualquer mudança no custo da operação tem um impacto significativo”, aponta Jorge Gonçalves.

Encarar a crise como oportunidade tem sido um dos chavões mais defendidos nos últimos tempos, nos mais variados sectores, e José Madeira Rodrigues, director comercial da ARVAL, não duvida que a mesma filosofia se aplique à gestão de frotas. “Na verdade, eu nem sequer vejo neste negócio um potencial de decrescimento, a não ser nos casos de ‘downsizing’ da própria empresa. Mas esta crise representa efectivamente oportunidades, sobretudo no que toca a despertar para novas formas de gestão das frotas, mais acauteladas e controladas. Julgo que estão criadas as condições para no futuro haver mais controlo de custos”, refere o responsável da ARVAL.

Decisões inteligentes

Dotar as empresas de ferramentas que permitam fazer avaliações mais criteriosas de todos os custos inerentes às suas frotas poderá ser a estratégia mais acertada nos tempos que correm, concordam os diferentes operadores. “Temos vários mecanismos para demonstrar, por exemplo, o impacto de cada utilização sobre os custos do automóvel. Todos esses dados podem ajudar as empresas a definir políticas de frota mais contidas, actuando sobre os comportamentos do utilizador”, exemplifica José Madeira Rodrigues, lembrando também que “quanto maior é a empresa, maior é o impacto de qualquer poupança com a frota tem nas suas contas”. Na BP, Jorge Gonçalves revela que a empresa se focou também em incentivar os clientes à utilização de ferramentas tecnológicas para auxiliar as decisões de gestão de frotas.

Afinando pelo mesmo diapasão, Ricardo Gonçalves Francisco, director-geral da Masternaut Portugal, empresa que mantém uma parceria tecnológica para a solução de Gestão de Frotas da Portugal Telecom, considera que “as decisões inteligentes passam pela profissionalização da gestão de frotas“. O responsável da Masternaut constata que “nem sempre se olhava para a factura com a disposição de mudar algo porque se sabia que este era um processo complexo. E muitas vezes a mudança não tem de passar pela redução do número de viaturas da frota, mas sim pela redução da sua utilização”.

Também Ricardo Gonçalves Francisco refere que as ferramentas de gestão hoje disponíveis para os profissionais de gestão de frotas podem constituir um preciso auxílio para a tomada de decisões inteligentes, salientando que “o impacto é geralmente maior nas grandes empresas”.

Retenção de colaboradores

Mais do que olhar para os veículos de uma empresa unicamente pelos números, gerir uma frota mexe com muitas outras sensibilidades. “A maior dificuldade está na mudança interna dos processos porque a viatura não é só uma ferramenta, é também um instrumento de motivação de colaboradores ou de complemento salarial”, destaca Ricardo Gonçalves Francisco. “Como complemento salarial, em regime de incentivo, as viaturas são muito valorizadas”, confirma João Zuquete. “Muitas vezes funcionam como ferramentas de retenção de capital humano e proceder a grandes alterações pode ter impactos muito negativos na área dos recursos humanos”, acrescenta o director financeiro da Fnac.

Também as medidas inscritas no Orçamento de Estado para 2011 poderão ter impacto na evolução das frotas das empresas, crê Nuno Braga. “O fim dos incentivos ao abate vai ter reflexo na venda de viaturas já este ano, prevendo-se até que as marcas entrem em ruptura de stocks”, revela o director-geral da Lexus. Por outro lado, Nuno Braga confirma a tendência de “downsizing” das viaturas, com as empresas a moderar a sua procura por carros mais dispendiosos.

Portugal é bastião do Leasing

O leasing mantém-se desde há vários como o modelo de financiamento preferencial para aquisição de viaturas no seio das empresas portuguesas. E se o Renting tem vindo a ganhar terreno junto das médias e grandes empresas, o mesmo já não acontece com pequenas e micro empresas e menos ainda com clientes particulares. “A propriedade do veículo ainda é muito valorizada em Portugal. É uma questão cultural e não me parece que exista tendência para isso mudar nas próximas gerações”, constata João Zuquete. “Além disso, o Leasing ainda é usado como forma de premiar colaboradores, que têm oportunidade de exercer opção de compra da viatura no final do contrato”, salienta o director financeiro da Fnac. A estes factores, Ricardo Gonçalves Francisco acrescenta outro. “O Leasing também funciona como mecanismo de retenção porque o colaborador só vai beneficiar da opção de compra se continuar na empresa até ao final do contrato”.

Carros eléctricos? Para já, não!

Com os primeiros carros eléctricos prestes a chegar ao mercado português, o painel de operadores convidado para a mesa redonda da ARVAL mostra-se muito descrente face à adopção deste novo estilo de mobilidade nas frotas empresariais lusas. Ainda que algumas empresas possam adoptar veículos eléctricos para deslocações curtas e frequentes no interior das cidades, será difícil ver frotas de empresas portuguesas a incluir veículos eléctricos já em 2011. “As empresas terão de esperar pela evolução do mercado de viaturas eléctricas para definir melhor a sua estratégia”, antecipa José Madeira Rodrigues, da ARVAL. “Ainda há muita incerteza sobre as diferentes tecnologias, sobre a evolução das baterias, sobre o custo e eficiência. Não sendo capazes de medir o risco, nós vamos fazer apostas muito limitadas e focalizadas sobretudos nos centros urbanos”, adianta desde já a gestora de frotas.

Na Fnac, por exemplo, está posta de lado a hipótese de integrar um veículo eléctrico na sua frota já em 2011. “Mais depressa apostaria num modelo híbrido do que num modelo eléctrico”, confessa o director financeiro da empresa. João Zuquete garante que a Fnac cumpre escrupulosamente uma política ambientalmente responsável, que passa pela escolha de viaturas pouco poluentes, mas admite que a questão financeira também fala alto no momento da decisão, pelo que “o ‘driver’ para a procura de veículos verdes nunca poderá estar limitado à protecção do ambiente”. Já quanto aos modelos híbridos, o responsável da Fnac acredita que o seu futuro nas frotas empresariais esbarra numa questão cultural. “O parque empresarial português é sobretudo composto por veículos a gasóleo e a passagem para o híbrido é mais difícil porque estes incluem gasolina e isso não é atractivo para quem gere a frota de uma empresa. Será preciso provar ao gestor da frota que o investimento em veículos híbridos é compensador”, alega João Zuquete.

Há, no entanto, empresas que poderão adoptar precocemente o carro eléctrico, contrapõe Ricardo Gonçalves da Francisco, da Masternaut. “Para muitas empresas esta será uma questão de reputação e ter um ou vários carros eléctricos poderá contribuir positivamente para a sua imagem corporativa”, sugere. “Pode também servir de ferramenta de incentivo para os colaboradores da empresa a quem é atribuída uma viatura de serviço”, acrescenta ainda Ricardo Gonçalves Francisco, para quem “as pequenas empresas terão mais facilidade em adoptar este tipo de veículos mais cedo face às grandes empresas”.

Nuno Braga, da Lexus, acredita que os veículos eléctricos venham a ter boa aceitação nas cidades, mas revela que a maior fatia dos investimentos das marcas de automóveis está a ser canalizada para os modelos híbridos. “Acreditamos nos modelos eléctricos para circulação nos centros urbanos, assim como acreditamos no futuro dos veículos híbridos e nos veículos híbridos com hidrogénio, neste caso mais especificamente para os casos de transportes internacionais. Há soluções para cada estilo de mobilidade das empresas e a preocupação ambiental não tem necessariamente de obrigar a aumento de custos”, alega. José Madeira Rodrigues concorda e salienta que “o argumento de opção por veículos verdes terá necessariamente de traduzir-se em euros. Tem de ser racional”.

A BP já tem uma unidade de negócio especificamente dedicada aos chamados combustíveis verdes ou biocombustíveis e não encara as novidades em torno da mobilidade eléctrica como uma ameaça. “Os consumidores vão aderir mais depressa do que as empresas”, antevê Jorge Gonçalves, para quem há ainda um longo caminho a percorrer nesta matéria de veículos eficientes e amigos do ambiente. “Ainda há muitas dúvidas, nomeadamente sobre capacidade da rede eléctrica para suportar muitos carregamentos em simultâneo”, exemplifica o responsável da petrolífera. “Também na opção por modelos híbridos, os particulares poderão ser considerados um driver importante”, sugere ainda José Madeira Rodrigues, lembrando que “são eles que vão comprar os modelos usados”.

in Oje Online

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