O carro eléctrico já existe desde o início do século passado

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O carro eléctrico, a vapor e a gasolina conviveram no mesmo mercado. Logo no princípio do século XX, porém, o eléctrico ficou para trás e nunca mais se reergueu.

Seis carros estavam alinhados para a largada. Durante a noite, uma tempestade de neve tinha coberto de branco as ruas de Chicago. A maior parte da centena de inscritos desistira de comparecer. Só aqueles seis carros – dois eléctricos e quatro a gasolina – iriam participar na primeira corrida de automóveis a motor nos Estados Unidos, dia 28 de Novembro de 1895, feriado de Acção de Graças.

Partiram às 8h55, para um percurso de ida e volta entre Chicago e Evanston, totalizando 87 quilómetros. Dez horas, vinte três minutos e algumas avarias depois, um carro a gasolina, dos irmãos Duryea, cruzava a meta. O segundo colocado, outro automóvel a gasolina, da companhia H. Mueller e com motor alemão Benz, só chegou passada uma hora e quarenta minutos. Os demais fi caram pelo caminho, incluindo os dois veículos eléctricos.

Este episódio poderia ser ilustrativo da vitória dos motores de combustão interna sobre os eléctricos. Mas, naquela época, em que a indústria automóvel estava a sair do berço, não se imaginava ainda qual seria a máquina que vingaria como melhor forma de transporte. Todas as alternativas – a vapor, a electricidade, a gasolina – emergiam ao mesmo tempo, convivendo simultaneamente com os cavalos.

A paternidade dos motores eléctricos para locomoção é usualmente atribuída a Thomas Davenport, nos Estados Unidos (1834), e a Robert Anderson, na Escócia (entre 1832 e 1839). Mas somente décadas depois é que surgiriam carros eléctricos de facto viáveis. Muitos nomes conhecidos participaram deste esforço pioneiro, como o inventor Thomas Edison ou os fabricantes Oldsmobile e Studebaker.

No ocaso do século XIX, os veículos eléctricos até chegaram a vender mais do que os de combustão interna. Mas isto não significa que fossem concorrentes directos. “Havia diferentes segmentos de mercado”, afirma David Kirsch, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, autor de vários trabalhos sobre a história do carro eléctrico. Os próprios especialistas, na altura, anteviam uma evolução em esferas separadas, com os carros eléctricos mais voltados para utilizações comerciais.

A princípio, foi o que aconteceu. Em 1897, frotas de táxis eléctricos surgiram em Nova Iorque e Londres. Dois anos mais tarde, eram anunciados também em Paris. Os táxis não tiveram muito sucesso, mas o mesmo não se pode dizer dos camiões eléctricos, que reinaram pelo menos até ao início da I Guerra Mundial.

Eram o substituto ideal para os carros puxados a cavalos que naquela época faziam a distribuição de produtos de consumo, como pães, cerveja, gelo ou carvão, conforme recordam David Kirsch e Gijs Mom, da Universidade Tecnológica de Eindhoven (Holanda), em artigos publicados sobre o assunto. Um camião eléctrico facilmente substituía uma carruagem com um ou dois cavalos, com visíveis vantagens, especialmente por operar sob quaisquer condições climáticas.

“De uma certa forma, o veículo eléctrico era como um cavalo. Fazia tudo o que os cavalos faziam, mas melhor”, afi rma David Kirsch, numa entrevista telefónica ao PÚBLICO. Muitas empresas, no entanto, mantinham ambos os tipos de transporte, utilizando a alternativa eléctrica como complemento à sua frota de animais. Camiões e cavalos começaram a compartilhar os estábulos.

Mais excitante e viril

O carro a combustão interna satisfazia outra esfera de interesses. No princípio, era um “brinquedo” da elite abastada. “Era mais sexy, mais excitante, mais viril”, diz David Kirsch. “Era como ter um jacto privado hoje”. E era, sobretudo, um veículo de passeio, para levar os amigos, os pretendentes ou a família a sítios mais distantes, aonde um carro eléctrico não chegava. “O veículo eléctrico não era apropriado para o turismo”, explica Kisrch.

A função inicialmente cultural do carro a gasolina foi um dos principais factores do seu sucesso sobre o veículo eléctrico de passageiros. “O roncar de um motor tornou-se um símbolo de poder, prestígio e progresso. O suave eléctrico acabou por ficar associado a idosos”, corrobora Paul Hughes, num artigo sobre os primeiros carros eléctricos, publicado na Internet.

A serviço dos motores a combustão interna, encontrava-se uma infra-estrutura já existente para a gasolina – nessa altura utilizada sobretudo na cozinha e para iluminação. Bastava parar o carro numa mercearia ou drogaria, comprar um pouco de combustível doméstico e despejá-lo no depósito do carro. Já a electricidade estava menos bem distribuída. Em 1917, só um terço das casas norteamericanas estava ligada à rede, e apenas um por cento tinha instalações eléctricas completas, que permitissem diferentes usos simultâneos – segundo recordam Gijs Mom e David Kirsch.

Quando, na década de 1910, Henry Ford introduziu linhas de montagem para a produção do seu Modelo T – que se tornaria no carro a gasolina mais popular nos Estados Unidos – já o veículo eléctrico, como alternativa individual, tinha o seu futuro comprometido. “Àquela altura, a batalha já estava terminada”, refere David Kirsch.

Décadas de ostracismo

Mais baratos, os carros a gasolina beneficiaram de outros factores que o ajudaram a empurrar o veículo eléctrico para o quase esquecimento. O início da exploração do petróleo no Texas, nas primeiras décadas do século XX, aumentou a oferta e reduziu os preços do combustível. Em 1912, surgiu o motor de arranque eléctrico, para substituir a inconveniente manivela até então utilizada para pôr a funcionar os veículos a gasolina. E a I Guerra Mundial revirou o mercado dos camiões, até então parcialmente dominado pelos eléctricos, na direcção dos motores de combustão interna, mais adaptados às necessidades militares.

Durante décadas, o carro eléctrico manteve-se no ostracismo. A sua reaparição nas décadas de 1960 e 1970, em função das preocupações com a poluição do ar e com a crise do petróleo, e depois nos anos 1990, não fez um arranhão sequer na estabilidade do mercado dos veículos de combustão interna.

Agora, que está de regresso, o factor cultural pode contar. Ter um automóvel eléctrico é um sinal de status. Mas a função número um de automóvel hoje é levar o seu dono do ponto A ao ponto B. “As pessoas querem carros eléctricos agora, mas não estão seguras de que eles irão suprir as suas necessidades”, afirma David Kirsch.

Ainda assim, há optimismo nesta nova vaga. “Estou convencido de que não há maneira de parar”, diz Robert Stüssi, presidente da Associação Portuguesa do Veículo Eléctrico. “Eles vão vencer. A questão é a velocidade com que irão penetrar no mercado”.

in Público

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